O misterioso caso do pterossauro que na verdade era uma tartaruga

Há algumas semanas, recebemos a informação da descrição de um novo pterossauro Thalassodrominae, pelos pesquisadores Gerald Grellet-Tinner e Vlad Codrea no prestigioso periódico Gondwana Research. Com base em um espécime extremamente fragmentário proveniente do Cretáceo Superior da Transilvânia, os autores fizeram uma identificação do material como sendo um pterossauro e fazem inúmeras inferências, todas bastante dramáticas:

1. Que este é uma nova espécie de Thalassodromeus

2. Que esta é uma espécie muito menor do que Thalassodromeus sethi, sendo fruto de nanismo insular

3. Que é esta espécie implica em uma distribuição biogeográfica muito diferente para Thalassodromeus

4. Que esta espécie implica em uma linhagem fantasma para Thalassodromeus

5. Que este espécime foi encontrado junto a plantas, e que portanto Thalassodromeus se alimentava de plantas e que os grupos possuíam uma certa co-evolução

6. Que as supostas cicatrizes musculares da crista da nova espécie mostram que a crista era muscular

BOM. Nosso colaborador Felipe Pinheiro trouxe o artigo à nossa atenção e prontamente percebemos que se tratava de uma identificação errônea e que, portanto, todos os pontos acima são suposições inválidas e, francamente, estão forçando bastante a barra para publicar em uma revista de grande fator de impacto, pois elas não possuem nenhum suporte. Claramente, os autores não têm familiaridade com Thalassodrominae e fizeram uma boa confusão com Tapejarinae – lembramos que há autores que sugerem que os dois clados podem ter histórias evolutivas distintas. Assim, decidimos escrever uma resposta e avisamos ao editor-chefe da revista sobre nossa intenção.

Não demorou muito, recebemos um email do pesquisador Gareth Dyke. Os autores do artigo defendiam seu ponto de vista do material ser de um pterossauro e diziam ter recebido suporte de pesquisadores brasileiros nesta identificação, e ele perguntava se sabíamos algo sobre isso. Até hoje, não consegui descobrir quem foi que supostamente apoiou esta identificação, pois todos os pesquisadores brasileiros que trabalham com pterossauros concordam que não se trata de um! Esta foi a primeira mentira dos autores, em um email ao editor-chefe da Gondwana Research.

Gareth Dyke estava liderando um grupo que também se propôs a escrever uma resposta ao artigo e, assim, nos identificamos como o outro grupo interessado e unimos esforços. Ele já tinha convidado vários especialistas em tartarugas, que confirmaram, sem dúvidas, se tratar de um plastrão de Kallokibotion.

Desta forma, pessoas que fazem parte de grupos de pesquisa normalmente rivais se uniram e escreveram uma resposta (e ainda dizem que nós, pterossaurólogos, discordamos em tudo!). Claro, há uma limitação no número de páginas, mas basicamente demonstramos que as características do material não são de um pterossauro, mas de um plastrão, e que por isso todas as inferências listadas pelos autores estão incorretas e não são replicáveis.

Ontem, nossa resposta foi disponibilizada online, bem como a réplica dos autores. E nela fica muito claro que os autores decidiram tomar um rumo um tanto quanto questionável, ao usar termos pessoais para tentar diminuir o valor de um grande grupo de pesquisas, com ampla experiência em pterossauros e em tartarugas, a fim de promover seus resultados. Além disso, os autores mentiram uma segunda vez, dessa vez publicamente, ao dizer que o material se encontrava acessível. Isso não é verdade – os autores negaram acesso ao material ao serem contatados por Gareth Dyke, e desde então apenas deram um acesso restrito (após o material ser tomografado por um deles).

Que lição podemos retirar disso? Bom, primeiramente analisar material em primeira mão nunca é algo superestimado! Além disso, vale a pena levar em consideração a opinião de seus revisores. Ficam aí as fotos para quem quiser analisar e tirar suas próprias conclusões.

GTCO material descrito por Grellet-Tinner & Codrea como sendo uma crista de Thalassodromeus.

KELLF1AThalassodromeus sethi, do Cretáceo Inferior do Brasil, e sua crista totalmente ossificada (sem as projeções em forma de dedos descritas para a suposta nova espécie).

kallokibotionPlastrão de Kallokibotion. Retirado de Gaffney & Meylan, 1992.

dyke et al.
A identificação como parte de um plastrão, por Dyke et al.

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