Um pterossauro inesperado

Foi publicada hoje uma nova espécie de pterossauro do Brasil, Caiuajara dobruskii. Mas, em adição a ser uma nova espécie, algumas coisas mostram que esta é uma descoberta extraordinária.

Primeiramente, em todo o mundo, pterossauros são normalmente encontrados em ambientes costeiros. A Bacia Bauru, que se estende por boa parte do sul, sudeste e centro-oeste do Brasil, é conhecida mundialmente por seus dinossauros e crocodilianos, estes últimos em grande número e diversidade e frequentemente bem preservados. Bom, onde estão os pterossauros da Bacia Bauru?, sempre perguntei. E sempre me responderam, -Mas era um ambiente desértico…

Daí aparece o Caiuajara. Descoberto em 1971 e esquecido em gavetas por décadas, ele foi recentemente re-descoberto pelos pesquisadores Paulo Manzig e Luiz Weinschütz, enquanto eles faziam um levantamento para o livro Museus e Fósseis da Região Sul do Brasil. Felizmente, o material contava com dados de sua procedência e foi possível realizar uma escavação, que acabou por descobrir uma camada relativamente pequena, mas que comportava centenas de ossos de pterossauros de uma mesma espécie, que viveram em um oásis no meio de um paleodeserto. Com a publicação do livro e sua ampla distribuição pela Sociedade Brasileira de Paleontologia, a existência desses pterossauros se tornou conhecida publicamente. Durante as escavações, reportagens mostraram os trabalhos. Mas só agora, com os espécimes preparados, eles puderam ser descritos.

O segundo motivo pelo qual o material do Caiuajara é excepcional é por se tratar de centenas de indivíduos, encontrados em uma área de menos de 20 metros quadrados. Os ossos, em sua maioria desarticulados, são preservados tridimensionalmente e permitem excelentes observações anatômicas. São pelo menos 47 indivíduos que demonstram modificações ontogenéticas claras nas cristas pré-maxilar e dentária (mas aparentemente não apresentam dimorfismo sexual). Algo bem interessante é que os juvenis possuíam crista pré-maxilar inclinada posteriormente e, à medida que se desenvolviam, a crista tomava uma posição mais verticalizada. Isso depõe contra a ideia, surgida há alguns anos, de que Tapejara wellnhoferi seria uma versão jovem de Tupandactylus imperator, sendo estas duas espécies então sinônimas.

Além disso, o Caiuajara evidencia mais uma vez que os pterossauros eram animais gregários (uma vez que vários esqueletos foram encontrados juntos) e precociais (pois não há diferença nas proporções entre os ossos pós-cranianos de juvenis e de adultos) – o que foi sugerido anteriormente, mas para outros grupos de pterossauros.

Seguem abaixo algumas fotos provenientes do artigo, que é de acesso livre.

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O misterioso caso do pterossauro que na verdade era uma tartaruga

Há algumas semanas, recebemos a informação da descrição de um novo pterossauro Thalassodrominae, pelos pesquisadores Gerald Grellet-Tinner e Vlad Codrea no prestigioso periódico Gondwana Research. Com base em um espécime extremamente fragmentário proveniente do Cretáceo Superior da Transilvânia, os autores fizeram uma identificação do material como sendo um pterossauro e fazem inúmeras inferências, todas bastante dramáticas:

1. Que este é uma nova espécie de Thalassodromeus

2. Que esta é uma espécie muito menor do que Thalassodromeus sethi, sendo fruto de nanismo insular

3. Que é esta espécie implica em uma distribuição biogeográfica muito diferente para Thalassodromeus

4. Que esta espécie implica em uma linhagem fantasma para Thalassodromeus

5. Que este espécime foi encontrado junto a plantas, e que portanto Thalassodromeus se alimentava de plantas e que os grupos possuíam uma certa co-evolução

6. Que as supostas cicatrizes musculares da crista da nova espécie mostram que a crista era muscular

BOM. Nosso colaborador Felipe Pinheiro trouxe o artigo à nossa atenção e prontamente percebemos que se tratava de uma identificação errônea e que, portanto, todos os pontos acima são suposições inválidas e, francamente, estão forçando bastante a barra para publicar em uma revista de grande fator de impacto, pois elas não possuem nenhum suporte. Claramente, os autores não têm familiaridade com Thalassodrominae e fizeram uma boa confusão com Tapejarinae – lembramos que há autores que sugerem que os dois clados podem ter histórias evolutivas distintas. Assim, decidimos escrever uma resposta e avisamos ao editor-chefe da revista sobre nossa intenção.

Não demorou muito, recebemos um email do pesquisador Gareth Dyke. Os autores do artigo defendiam seu ponto de vista do material ser de um pterossauro e diziam ter recebido suporte de pesquisadores brasileiros nesta identificação, e ele perguntava se sabíamos algo sobre isso. Até hoje, não consegui descobrir quem foi que supostamente apoiou esta identificação, pois todos os pesquisadores brasileiros que trabalham com pterossauros concordam que não se trata de um! Esta foi a primeira mentira dos autores, em um email ao editor-chefe da Gondwana Research.

Gareth Dyke estava liderando um grupo que também se propôs a escrever uma resposta ao artigo e, assim, nos identificamos como o outro grupo interessado e unimos esforços. Ele já tinha convidado vários especialistas em tartarugas, que confirmaram, sem dúvidas, se tratar de um plastrão de Kallokibotion.

Desta forma, pessoas que fazem parte de grupos de pesquisa normalmente rivais se uniram e escreveram uma resposta (e ainda dizem que nós, pterossaurólogos, discordamos em tudo!). Claro, há uma limitação no número de páginas, mas basicamente demonstramos que as características do material não são de um pterossauro, mas de um plastrão, e que por isso todas as inferências listadas pelos autores estão incorretas e não são replicáveis.

Ontem, nossa resposta foi disponibilizada online, bem como a réplica dos autores. E nela fica muito claro que os autores decidiram tomar um rumo um tanto quanto questionável, ao usar termos pessoais para tentar diminuir o valor de um grande grupo de pesquisas, com ampla experiência em pterossauros e em tartarugas, a fim de promover seus resultados. Além disso, os autores mentiram uma segunda vez, dessa vez publicamente, ao dizer que o material se encontrava acessível. Isso não é verdade – os autores negaram acesso ao material ao serem contatados por Gareth Dyke, e desde então apenas deram um acesso restrito (após o material ser tomografado por um deles).

Que lição podemos retirar disso? Bom, primeiramente analisar material em primeira mão nunca é algo superestimado! Além disso, vale a pena levar em consideração a opinião de seus revisores. Ficam aí as fotos para quem quiser analisar e tirar suas próprias conclusões.

GTCO material descrito por Grellet-Tinner & Codrea como sendo uma crista de Thalassodromeus.

KELLF1AThalassodromeus sethi, do Cretáceo Inferior do Brasil, e sua crista totalmente ossificada (sem as projeções em forma de dedos descritas para a suposta nova espécie).

kallokibotionPlastrão de Kallokibotion. Retirado de Gaffney & Meylan, 1992.

dyke et al.
A identificação como parte de um plastrão, por Dyke et al.

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Apresentando o Hamipterus tianshanensis

Pterossauros chineses sexualmente dimórficos e preservados tridimensionalmente e seus ovos

Cientistas chineses e brasileiros publicaram hoje uma das mais importantes descobertas para o estudo dos pterossauros, répteis voadores que viveram no Mesozoico, há mais de 100 milhões de anos.

Os pterossauros, animais aparentados dos dinossauros, possuíam esqueletos leves e frágeis, e, portanto, a grande maioria dos seus fósseis é encontrada de modo achatado e incompleto. Além disso, a grande maioria de suas espécies é conhecida por apenas um ou poucos indivíduos, o que dificulta estudos sobre variações entre machos e fêmeas e as mudanças que ocorriam durante seu desenvolvimento.

A descoberta do novo gênero e espécie Hamipterus tianshanensis vem abrir uma importante exceção. Este réptil foi descoberto na Bacia de Turpan-Hami, na cidade de Hami, na província de Xinjiang, no extremo noroeste da China. Diferentemente do caso com a maioria dos outros pterossauros conhecidos, os cientistas puderam escavar cerca de quarenta indivíduos, incluindo jovens, adultos, fêmeas e machos, preservados tridimensionalmente, com envergaduras variando entre 1,5 e 3,5 metros. O Hamipterus demonstra que tanto indivíduos adultos como jovens possuíam cristas na parte anterior a média de seu crânio, e que, à medida que cresciam, a principal mudança que ocorria em seus ossos era uma maior robustez e largura do focinho, demonstrando que mesmo os indivíduos jovens possuíam estes adornos. A nova espécie também comprova que tanto machos como fêmeas possuíam cristas, diferentemente do imaginado antes, que elas seriam exclusivas de machos. Em Hamipterus, os machos tinham tamanhos maiores e suas cristas, de acordo, também eram maiores e mais robustas. Já as fêmeas eram menores e com cristas menores do que as dos machos, mas ainda assim conspícuas e bem desenvolvidas. Acredita-se que as cristas possuíam várias funções, dentre elas a identificação interespecífica.

Além dos restos esqueléticos destes répteis, os cientistas descobriram ao menos cinco ovos. Até então, apenas quatro ovos de pterossauros eram conhecidos, todos eles extremamente achatados. Os ovos de Hamipterus, por outro lado, são preservados tridimensionalmente. Análises de espectroscopia de raios X por dispersão em energia, feita sob microscopia de varredura, demonstram claramente que o Hamipterus punha ovos de casca maleável, mas com uma fina camada externa calcária mais rígida, similares a algumas serpentes atuais. Deste modo, os ovos fossilizados do Hamipterus apresentam-se um pouco amassados e com finas rachaduras em sua parte mais externa, mas se encontram intactos, não quebrados. Isso aumenta as chances de encontrar embriões em seu interior.

O encontro deste espetacular depósito fossilífero demonstra que estes répteis voadores eram animais de comportamento gregário e que possuíam locais específicos de nidificação, formando colônias. Provavelmente, Hamipterus enterrava seus ovos às margens de lagoas e rios, o que evitaria que eles se desidratassem. O depósito escavado é testemunha de um episódio catastrófico, em que uma tempestade que culminou em soterrar os ovos, juntamente com esqueletos de animais que já estavam mortos, preservando esta população de modo excepcional.

Publicação: Wang, X. et al. 2014. Sexually dimorphic tridimensionally preserved pterosaurs and their eggs from China. Current Biology 24: 1-8. Leia aqui

Fosseis e um ovo

Bloco contendo material pós-craniano e um dos ovos

Hamipterus - femeas esquerda machos direita

Crânios de fêmeas (esquerda) e de machos (direita)

Ovo de Hamipterus esquerda e de serpente direita

Ovo de Hamipterus (esquerda) comparado a um ovo de serpente (direita)

Hamipterus - Maurilio Oliveira

Reconstrução em vida de Hamipterus tianshanensis (por Maurílio Oliveira)

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Mais divulgação científica

Fechamos o mês de abril com mais uma ótima oportunidade de realizar divulgação científica: com uma entrevista ao vivo no Bom Dia ES no dia 22. Falamos sobre paleontologia e, claro, sobre pterossauros. De quebra, ainda levaram ao ar uma reportagem feita há alguns meses no MUSES – Museu de História Natural do Sul do Estado do Espírito Santo.

g1.globo.com/videos/espirito-santo/bom-dia-es/t/edicoes/v/paleontologa-fala-sobre-seu-trabalho-no-sul-do-es/3296575/

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Revista Universidade

O mais recente número da Revista Universidade, da UFES, trouxe uma reportagem sobre nosso trabalho e também uma curta entrevista com o presidente da Sociedade Brasileira de Paleontologia, prof. Max Langer. Agradecemos à jornalista Maíra Mendonça pela divulgação. Clique nas fotos para visualizar em tamanho maior.

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Viagem à China

Neste mês de março, tivemos a oportunidade de visitar o Laboratório de Evolução dos Vertebrados e Origens Humanas do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia (IVPP) em Pequim, na China, dando prosseguimento à nossa colaboração com o Dr. Wang Xiaolin, Dr. Cheng Xin e Jiang Shunxing em pesquisas envolvendo novas descobertas de pterossauros de depósitos da China.

O Dr. Cheng Xin virá ao Brasil neste mês para fazer seu pós-doutoramento no Museu Nacional / UFRJ. Já o Dr. Wang Xiaolin, líder do grupo de pesquisa em pterossauros no IVPP, estará no Rio de Janeiro em maio para assumir sua vaga como membro correspondente da Academia Brasileira de Ciências.

Um dos trabalhos feitos em colaboração com nossos colegas chineses será submetido para apreciação ao volume especial de pterossauros do periódico Historical Biology, a ser publicado no primeiro número de 2015. O periódico está recebendo contribuições a este volume até o final de Abril.

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Pterossauro traficado… de novo

2013 foi um ano muito proveitoso, com dois projetos de pesquisa em pleno desenvolvimento e nossa participação no XXIII Congresso Brasileiro de Paleontologia, 73 rd SVP Meeting, Paleo RJ-ES, e em eventos de extensão como a Semana Estadual de Ciência e Tecnologia.

Começamos 2014 com muito trabalho e disposição, participando de uma reunião para apreciar a minuta de portaria do DNPM para regulamentar os pedidos de extração de fósseis no Brasil.

Mas qual não foi a nossa surpresa ao nos depararmos, esta semana, com a notícia da venda de uma pterossauro no brasileiro, certamente fruto de tráfico, no EBay? A repórter Paloma Oliveto recebeu uma denúncia e fez duas reportagens muito boas, publicadas nos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas. O que para nós já se tornou comum, para ela foi uma grande surpresa:

Loja francesa faz leilão de fóssil brasileiro no Ebay

Fósseis brasileiros estão à mercê da sorte

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